Constelações Familiares

O Caminho da Reconciliação Integral

Reconciliar o que estava separado para restabelecer

o fluxo do amor.

Resumidamente, este é o objetivo e a direção das Constelações

Familiares, abordagem terapêutica criada pelo alemão Bert

Hellinger que vem atraindo o interesse de muitas pessoas,

nstituições e empresas ao redor do mundo.

E o que há de novo nesta abordagem que a torna tão

atraente?

Em primeiro lugar, a Constelação Familiar se encaixa na

categoria de “terapias breves”, um diferencial e tanto neste

mundo contemporâneo no qual os serviços são oferecidos em

tempo real e os resultados prometidos para ontem. Apesar de não pretender substituir o tratamento terapêutico regular de longo prazo, a precisão, a clareza e o alívio que o trabalho propicia têm surpreendido e conquistado inúmeros fãs entre psicólogos, juízes, médicos, consultores empresariais, além do público em geral.

O atendimento é feito em uma sessão em que o essencial sobre a questão do cliente vem à tona e uma nova perspectiva lhe é “oferecida” a partir do que se mostra. A forma com que o trabalho flui e o modo que revela os impedimentos e as soluções são muitas vezes surpreendentes. Para a realização de uma sessão em grupo é necessária a presença de um cliente, de um grupo de apoiadores (ou representantes) e do terapeuta. A sessão começa com o cliente expondo a questão que deseja trabalhar: um aspecto que não flui bem em sua vida; uma relação em crise; uma doença etc. Qualquer que seja a questão trazida pelo cliente é importante que ela tenha força, que represente um verdadeiro impedimento à sua felicidade.

 

Um constelador treinado não precisa de muitas informações.

Aprendemos que o essencial pode ser dito em poucas palavras e é em busca do essencial que o constelador abre sua escuta e vê surgir dentro de si uma imagem inicial. Em seguida alguns apoiadores são convidados a colocarem-se de pé na sala como representantes dos principais envolvidos na questão do cliente. Estes apoiadores dão tridimensionalidade ao que foi exposto e, desta maneira, ajudam a revelar o que ainda não podia ser visto.

Pode-se iniciar uma constelação com alguém representando o cliente e seu pai, o cliente e sua raiva, o cliente adulto e sua criança etc. São infinitas as possibilidades. Após alguns instantes em que permanecem centrados, os apoiadores colocam-se à disposição do “campo de informações da família do cliente” e passam a manifestar aspectos relevantes com relação ao que está sendo tratado através de sensações físicas, emoções ou pelo desejo de se movimentar. A observação e o acompanhamento destas manifestações permite ao constelador compreender a origem da queixa do cliente e intervir, quando necessário, a fim de que a dinâmica siga numa direção amorosa e reconciliadora. 

Por outro lado, por mais que se explique detalhadamente como se passa a dinâmica de uma sessão de Constelações Familiares, não é possível alcançar a dimensão do que acontece. A melhor maneira de conhecer este trabalho é experimentá-lo. Sua perspectiva fenomenológica já diz por si só que o essencial vem do fenômeno e não de uma construção intelectual.

 

A partir do que observou em sua longa trajetória, Bert Hellinger compreendeu profundamente aspectos decisivos da alma humana. A grandeza do que ele trouxe à luz pode ser constatada pela repercussão desta abordagem e seu crescimento exponencial em muitas áreas de conhecimento. E o melhor, trata-se de uma obra aberta, em evolução, que não obedece a dogmas, construções mentais ou parâmetros “científicos”. O grande prêmio para quem aproveita este trabalho é a sensação de alívio, de que algo profundo encontrou paz num bom lugar. Trata-se de um novo paradigma desafiador num mundo dominado há séculos pelo pensamento cartesiano e que ganha dia a dia mais adeptos com sorrisos nos lábios.

 

Entre as preciosas revelações que Bert Hellinger trouxe ao mundo estão o que ele chamou de Ordens do Amor.

É uma denominação incômoda para muitos de nós. Como imaginar que o Amor em si não seja suficiente, que sua intensidade não seja garantia de prazer e alegria, que precise de trilhos, de direção e sentido? Passado este primeiro espanto, num pequeno esforço de memória podemos recordar de relacionamentos afetivos interrompidos apesar das partes manifestarem tanto amor, de relações entre pais e filhos que nunca conseguiram expressar de forma construtiva o amor envolvido.

A primeira Ordem, intrínseca à nossa chegada ao mundo, é a do Pertencimento.

Através do encontro de um homem e uma mulher, não importam as circunstâncias em que este encontro tenha ocorrido, ganhamos o direito a pertencer à espécie humana. Este direito, concedido por uma instância superior que cuida dos mistérios do universo, está atrelado à identidade e à história que vivemos. Mesmo após o fim da vida, o direito ao pertencimento continua e permanece intacto pela eternidade pelo simples fato de que não há como apagar o impacto que causamos com a nossa existência. Isto significa que, da perspectiva do que Bert Hellinger chama de Consciência Espiritual, todos temos direito a pertencer, não importa o que fizermos da nossa vida. Somos pura manifestação do Divino em suas infinitas possibilidades e do ponto de vista deste Divino não existe julgamento de valor ou estranheza, apenas o reconhecimento ao direito de existir. A existência de partes da Criação que não nos atendem ou não nos agradam em nada atinge a grandeza desta mesma Criação. Ao contrário do que gostaríamos, não há lixeira no Universo, não há o que tirar nem por. Na Bíblia, o apóstolo Mateus lembra que o Pai “faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos”. É a mais pura verdade.

 

E onde então o Pertencimento é ameaçado?

Se a Consciência Espiritual é a perspectiva mais ampla para observarmos a existência, a Consciência Pessoal é a mais curta e é nela que a oposição entre os aspectos da Criação aparecem. As leis, a moral, os dogmas religiosos, as tradições e os Mitos de Criação são parâmetros que nos ajudam a conviver, a decidir a direção que desejamos imprimir às nossas ações e a construir uma consciência clara sobre o impacto que causamos. Desde o nível da Consciência Pessoal, o grupo primordial e mais importante na vida é o familiar. O vínculo que estabelecemos com pai e mãe (e seus sistemas), independente do tempo e da qualidade do convívio com eles, é único, decisivo e indissolúvel. Os pais dão passagem à vida e nada se compara a este ato. É o ato que liberta o potencial para que a grandeza do Criador se manifeste através de nós.

 

As questões do cotidiano porém, nos direcionam para aspectos mais imediatos como a sobrevivência, por exemplo. Ao nascermos precisamos de cuidados, de comida, afeto, proteção, roupas, uma infinidade de atenções sem as quais não somos capazes de sobreviver. Esta necessidade extrema, que se estende por muitos anos através da infância e da adolescência, somente é atendida porque aqueles que proveem o que precisamos confiam que cresceremos fiéis às regras familiares e que, se necessário, sacrificaremos nossas vidas pela integridade do grupo familiar. Enquanto estamos em posição de absoluta dependência, aquiescemos de bom grado diante de tamanha expectativa e, de uma maneira geral, mantemo-nos fiéis em pensamentos e ações ao que é esperado pelo grupo que nos acolheu. Quando seguimos nesta direção experimentamos um sentimento de relaxamento e boa consciência, de segurança e pertencimento. Quando nos desviamos das normas do grupo, sentimo-nos ameaçados, tensos e receosos quanto a este pertencimento. Cada vez que um membro de um sistema familiar age em desacordo com as regras do grupo, os demais membros tratam esta pessoa como uma ameaça à integridade do grupo e podem chegar a excluí-la. A exclusão traz inicialmente um alívio aos participantes que continuam mas, no decorrer do tempo, o sistema entra em desequilíbrio. Embora as leis de Pertencimento ao grupo sejam claras e seu descumprimento implique em consequências como a exclusão, perante a Consciência Espiritual, que abarca a tudo sem julgamentos, ninguém pode ser excluído.

 

O reequilíbrio do sistema fica a cargo de uma consciência intermediária, chamada de Consciência Coletiva.

Esta consciência zela pela integridade dos sistemas, custe o que custar. Quando por exemplo um membro do sistema se suicida e os demais evitam falar dele e até mesmo procuram esconder a sua existência, movidos pelo constrangimento que o fato trouxe ao grupo, a Consciência Coletiva escolhe aleatoriamente uma pessoa de uma geração seguinte e atua para que ela passe a pensar, sentir e agir de maneira parecida ao membro que foi excluído a fim de que ele seja lembrado. Isto significa que num sistema em que alguém foi excluído, um novo membro pode viver durante muitos anos, ou até mesmo a vida toda, um destino que não era seu. Este reequilíbrio cego para a individualidade, promovido pela Consciência Coletiva, pode ser identificado e desfeito numa sessão de Constelação Familiar através do reconhecimento do direito a pertencer do membro anteriormente excluído e da desidentificação do cliente com aquele ascendente.

Outra Ordem importante é a da Precedência.

Ela nos revela que cada pessoa tem um lugar no sistema e que quando desejamos ocupar um lugar que não é nosso também se instala um desequilíbrio. Filhos que se sentem e querem ser maiores do que os pais, irmãos menores que procuram se impor aos maiores são alguns exemplos. Quando os menores se arrogam assumir algo que caberia aos maiores, acabam sentindo um peso que não podem suportar e afastam-se de seu centro. E quando nos afastamos do centro, também deixamos para trás o bom senso, a medida e a clareza.

A Ordem do Equilíbrio entre o Dar e Receber se mostra fundamental nos relacionamentos de qualquer natureza.

Dou o que tenho e apenas o que o outro está disposto a receber. Recebo na medida que posso retribuir. Quando esta “contabilidade” é rompida as relações entram em desequilíbrio. Créditos e débitos nos impelem a agir no sentido de reequilibrar esta dinâmica mas nem sempre é fácil. Toda vez que dou exageradamente para alguém sinto-me no direito de receber muito e acumulo créditos. Para o outro, que talvez não possa ou não queira retribuir tanto, aquilo que dei representa um peso e o que carrega é uma sensação de imenso débito. Mais do que isso. Se o devedor não pode ou não quer compensar o que recebeu muitas vezes acaba dando um jeito de romper a relação para sentir-se livre novamente. Quem deu acusa o outro de mal agradecido e quem rompeu sente-se aliviado.

Depois de facilitar centenas de constelações verifiquei que as queixas dos clientes manifestam sua impossibilidade de concordar com o mundo como ele é, com o outro como ele é e/ou consigo mesmo como são. Aqueles que não concordam com o mundo como é são os que perdem mais energia pela inutilidade de suas queixas. O mundo alterna ciclos de dia e noite e estações; nascemos e morremos; sofremos e nos alegramos. Sempre existirão pessoas e situações que nos agradam e que nos desagradam e todos podemos manifestar aspectos construtivos e destrutivos. São grandes características da vida e do mundo em que vivemos e a vida precisa começar a partir delas. Este é o modo de funcionamento e a pergunta correta seria: o que posso realizar e como posso me divertir a partir destas condições?

Concordar com o Outro como ele é talvez seja a atitude mais difícil de todas. O desejo de que o Outro se transforme para nos atender ou nos “facilitar as coisas” é uma aspiração puramente infantil. E os desejos infantis num corpo de adulto geram paralisação. As crianças não se movem enquanto não são atendidas ou atraídas por uma nova ilusão. E quando nos aferramos em que tudo se modifique para nos satisfazer criamos conflitos atrás de conflitos. Não é à toa que a justiça esteja assoberbada de processos. Quando discutimos a partir da perspectiva infantil via de regra convocamos uma instância maior para julgar, exatamente como fazíamos com a mamãe e o papai em casa ou com a professora na escola. Neste aspecto vale ressaltar que nos lugares onde o Poder Judiciário brasileiro tem acolhido as Constelações Familiares, seja em Audiências de Conciliação, Mediação ou como instrumento da Justiça Restaurativa, todos tem se surpreendido com os elevadíssimos índices de sucesso em promover acordos e evitar a abertura de novos processos.

 

Nesta categoria de Outros, os mais importantes são os pais. Quando crianças olhamos para eles com a certeza de que são super heróis imbatíveis, infalíveis e que estão ali para nos dar tudo o que queremos e imaginamos. Na infância não cogitamos a hipótese de que nossos pais são seres limitados. Por um lado esta perspectiva nos ajuda a experimentar a sensação de segurança e proteção. Por outro lado nos enchemos de raiva, mágoa e incompreensão quando não nos atendem. O mais grave é que crescemos imaginando que além de poderosos nossos pais eram seres livres e se não agiram como gostaríamos que tivessem agido foi porque deliberadamente escolheram o pior e isto é intolerável para um filho. Mesmo adultos custamos a perceber que os pais também são seres limitados, seja pelos seus sonhos, pelos seus traumas, pelas suas crenças, pela vontade de provar seu amor, de agradar, uma lista infinita de boas razões. As mesmas que carregamos sem nos dar conta.

 

Tudo aquilo que não concordamos com os pais e todas as acusações que continuamos a fazer em relação a eles seguem dentro de nós e se manifestam nas demais relações, seja na família, no ambiente de trabalho ou na vida afetiva. Passamos a vida tentando resolver com os Outros que surgem pelo caminho assuntos que ficaram em aberto ainda em nossa infância e adolescência. Oneramos as relações com pedidos infantis e expectativas descabidas, queremos desesperadamente que os Outros mudem para nos satisfazer. As Constelações Familiares e a visão sistêmica mostram claramente o quanto este esforço é inútil e nos convida a olhar o Outro sob uma nova perspectiva.

O Outro nos desafia com a sua diferença e é exatamente a partir dela que podemos nos conhecer mais.

Quando nos aproximamos de alguém com admiração estamos na verdade reconhecendo qualidades que podemos desenvolver mas que anda estão adormecidas. Quando o que o Outro traz é desagradável está nos mostrando também características que também carregamos mas que ainda estão escondidas e que não desejamos ver pois na maior parte das vezes são condenadas pela moral e costumes vigentes.

As Constelações Familiares nos ajudam a reconhecer, respeitar e abraçar a diversidade da Criação sob todas as formas, por dentro e por fora. E somente abraçados poderemos estimular as próximas gerações a cultivar um futuro pleno de Amor.

 

Ricardo Mendes (março de 2016)

 

Ricardo Mendes é Arteterapeuta (membro do Conselho Diretor da UBAAT), Shamanic Teacher (Sandra Ingerman) e Constelador Familiar formado pelo Instituto de Filosofia Prática Peter Spelter e Especialização em Hellinger Sciencia diretamente por Bert Hellinger. Mora no Rio de Janeiro, onde dirige o Espaço Iralem. Desde 2011 forma novos consteladores no Brasil e em outros países da América do Sul.