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O Lugar, a Perplexidade e a Oportunidade

Uma das coisas mais importantes que aprendi na vida e sigo observando é que não há como alguém oferecer o seu melhor se este alguém se encontra fora de lugar. O desconforto é geral. Aquele que está fora de lugar sabe que está se esforçando ao máximo, dando tudo de si e aqueles que estão à sua volta se ressentem pela frustração diante dos resultados abaixo do que esperavam. Se Lionel Messi fosse escalado pelo treinador para ser o novo goleiro do Barcelona, apesar de ser uma unanimidade como jogador de futebol, estaria fadado ao fracasso por não ter se especializado nesta posição e, principalmente, por não ter a estatura necessária para ocupá-la (apenas 1,70m de altura). Sorte nossa que nenhum treinador se atreveu a escalá-lo nesta posição e que ele também não tinha uma ideia fixa em ocupá-la.

Em outras áreas da vida, porém, as coisas não funcionam assim. Na vida pública e nas empresas, por exemplo, a mudança de função para um cargo mais elevado ou de maior prestígio podem resultar num fiasco.

É exatamente o que vejo acontecer na presidência da nossa república. Assim como Messi não tem estatura para ser goleiro, o presidente atual não tem estatura para a função que ocupa.

Antes que alguém imagine que minha afirmação tem conotação ideológica, esclareço que não tem. Votei no Lula na primeira vez que foi eleito, depositando muita esperança e me frustrei ao perceber que o projeto de poder dele e de seu partido criaram uma ética própria que a minha inocência não concordava.

Acredito que o presidente atual se elegeu principalmente pela frustração e pelo cansaço de tantos na ética espaçosa criada pelo projeto do PT. O PSL nunca foi um partido de massa e o que o seu candidato fez foi se colocar como o mais radicalmente oposto ao grupo anterior, uma estratégia de marketing que funcionou.

Mesmo assim não votei no candidato que se tornou presidente e nem vi com entusiasmo a sua eleição. Mas depois que foi eleito torci para que também pudesse trazer algo bom para o país a partir da sua perspectiva e que tivesse a grandeza de levar adiante iniciativas importantes implantadas nas gestões anteriores.

Passados 15 meses, perdi qualquer esperança neste sentido. Perdi porque a pessoa que ocupa o lugar de nosso presidente não se cansa de mostrar o quanto se sente mal na função que ocupa. Tampouco consegue compreender que os tempos da Câmara de Deputados, onde ocupava um lugar importante por sua dissonância, acabaram.

Agora ele deveria ser o presidente de todos; agora ele poderia incluir os melhores especialistas para servirem à nação; agora deveria compreender que neste lugar não existe espaço para opiniões pessoais, para retaliações pequenas e para deixar seus filhos criarem tantos problemas com suas declarações como se o país estivesse sendo governado por alguém de outra corrente política.

Repito, não se trata de uma questão ideológica. O que estou dizendo é algo maior do que isso. Ser presidente para ele vem sendo uma tortura pessoal e qualquer terapeuta atento pode constatar que, através de suas atitudes, entrevistas e conflitos gratuitos, ele está pedindo ajuda para que o tirem de lá o quanto antes. Os panelaços que estão se multiplicando indicam que ele está sendo compreendido.

No mundo dos negócios, a pandemia têm trazido à tona oportunidades imensas para que empresários e bancos reconheçam que não há como seguir num mundo em que meia dúzia se abarrotam de dinheiro e benefícios em detrimento da maioria da população. Vi durante estes dias alguns videos de empresários que me impressionaram. Estão furiosos com o fechamento coercitivo de seus negócios, questionam como os funcionários sobreviverão durante os meses de reclusão que seguirão à nossa frente se os tiverem que demitir, blá, blá, blá.

As grandes empresas e os bancos se tornaram prósperos graças ao esforço de toda esta gente que agora está impedida de trabalhar. Eles precisam de proteção sim. Mais do que isso, merecem esta proteção. Mais ainda, merecem respeito e reconhecimento. São eles que vêm oferecendo suas vidas para que a saúde e a prosperidade das empresas, dos empresários, bancos e banqueiros aconteça. Agora é uma excelente hora para abrirem mão dos lucros para retribuir seu empenho; de custearem treinamentos online para qualificar seus colaboradores e torná-los ainda mais fortes para o futuro; de assinalarem para funcionários e clientes que suas marcas não estão apenas preocupadas com o balanço, mas com um mundo melhor para todos; de se desfazerem de parte do patrimônio que acumularam para ajudar aqueles que não tem como se sustentar durante meses sem trabalhar, que não dispõem de cômodos especiais para isolamento de infectados de suas famílias em suas casas simples.

 

Os empresários e banqueiros que não compreenderem isso, que quiserem mais uma vez sair ilesos desta pandemia, não terão entendido nada sobre ela. Entre outras coisas, esta pandemia está mostrando a todos nós que esta era em que podíamos viver sem enxergar os outros está chegando ao fim.
 

E que este enxergar o outro é o único caminho capaz de estabelecer vínculos duradouros num nível em que nenhum Programa de Fidelidade pode alcançar.

 

Carinho e esperança,
Ricardo Mendes

Foto:Ricardo Mendes